Como é feita a avaliação do imóvel no empréstimo com garantia, e por que o laudo costuma vir abaixo do anúncio?
No empréstimo com garantia de imóvel, o valor do bem é definido por um laudo feito por engenheiro ou arquiteto credenciado pela instituição financeira, seguindo a norma ABNT NBR 14653. O laudo estima por quanto o imóvel seria vendido em prazo razoável, não o preço de anúncio, e o crédito liberado é um percentual desse valor.
Por Luís Fernando Henriques, fundador do Grupo LFH · Revisão técnica: Grupo LFH · Atualizado em
Antes de qualquer número de proposta, a instituição financeira precisa saber quanto o imóvel vale como garantia. Esse valor sai de um laudo de avaliação, e é dele, não do preço de anúncio nem da expectativa do proprietário, que depende o crédito liberado.
Esta página explica quem faz a avaliação, como o valor é calculado, por que ele costuma ficar abaixo do que o dono imagina e o que fazer quando o resultado não fecha a conta.
Quem avalia e com que regra
A avaliação é feita por engenheiro ou arquiteto credenciado pela instituição financeira, diretamente ou por empresa de avaliação contratada por ela. A instituição escolhe o avaliador porque é ela que assume o risco: se o imóvel um dia precisar ser vendido para quitar a dívida, é o valor do laudo que precisa se sustentar.
O trabalho segue a norma ABNT NBR 14653, que define os métodos de avaliação de bens. A parte 2 da norma trata dos imóveis urbanos e é a referência para casas, apartamentos, salas e lojas.
Como o valor é calculado
O método mais usado para imóveis urbanos é o comparativo direto de dados de mercado: o avaliador reúne ofertas e vendas de imóveis semelhantes na mesma região e ajusta as diferenças de área, padrão de acabamento, idade, conservação, vagas e andar. O resultado é uma estimativa do valor de mercado, com um intervalo de confiança.
A visita ao imóvel, a vistoria, serve para conferir o que os documentos dizem e registrar o que eles não dizem:
- Área e características, comparadas com a matrícula e o IPTU.
- Estado de conservação e padrão de acabamento.
- Benfeitorias e reformas.
- Localização: acesso, vizinhança e oferta de serviços.
Além do valor de mercado, muitos laudos estimam também um valor de liquidação forçada: o preço provável numa venda rápida. Para a instituição, é esse cenário que importa caso a garantia precise ser executada.
Por que o laudo costuma ficar abaixo do anúncio
Três razões aparecem em quase todo caso:
- Anúncio não é venda. O preço anunciado é o pedido do vendedor, e a negociação costuma derrubá-lo. O avaliador trabalha com o valor provável de venda.
- O laudo é conservador por função. Ele precisa valer para o pior momento: uma eventual venda depois de inadimplência, possivelmente num mercado mais fraco.
- O que não está na matrícula não entra. Uma ampliação, uma edícula ou a própria construção sem averbação tendem a ser desconsideradas. Em casos extremos, o imóvel é avaliado como terreno. O tema tem página própria: imóvel sem habite-se ou sem averbação.
Liquidez também pesa. Um imóvel de padrão comum em região procurada se vende rápido e perto do valor de mercado. Um imóvel muito grande, muito personalizado ou em região de pouca procura tem menos compradores possíveis, e o laudo reflete isso.
Do laudo ao crédito liberado
O crédito máximo é um percentual do valor de avaliação, o LTV (loan to value). Nas condições de referência das instituições contratantes, o LTV chega a 50% para imóveis residenciais e a 40% para comerciais.
Condições de referência disponíveis em instituições contratantes, sujeitas ao perfil do tomador, imóvel, finalidade e política de crédito vigente.
A conta é feita sobre o valor do laudo, não sobre o valor que o proprietário tem em mente. Por isso a diferença entre os dois pesa em dobro: um laudo abaixo do esperado reduz o crédito na proporção do LTV. Se o imóvel ainda está financiado, o saldo devedor também sai dessa margem. A conta completa está em imóvel ainda financiado.
O valor do imóvel define o teto, mas não é o único limite. A renda ou o faturamento precisam comportar a parcela, e a análise de crédito pode aprovar um valor menor do que a garantia permitiria.
Como se preparar para a vistoria
- Tenha a matrícula atualizada em mãos e confira se a área construída e as ampliações constam nela.
- Separe o carnê do IPTU, a planta aprovada e, se houver, o habite-se.
- Liste as reformas com data e o que foi feito. Benfeitoria que o avaliador não vê ou não conhece não entra.
- Garanta acesso a todos os ambientes, inclusive garagem, depósito e áreas externas.
- Reúna referências de venda: imóveis comparáveis vendidos recentemente na região ajudam se for preciso pedir revisão.
Quando o valor não fecha a conta
Se o laudo veio abaixo do necessário, há quatro caminhos:
- Pedir revisão com dados: vendas comparáveis, área não considerada ou benfeitoria ignorada. Sem fundamento, o pedido raramente muda o resultado.
- Ajustar o valor pedido ao que a garantia comporta.
- Regularizar a matrícula, quando a diferença vem de construção não averbada.
- Somar ou trocar a garantia, quando há outro imóvel disponível.
Antes de pagar a avaliação, vale passar pela análise preliminar, sem custo. Ela estima a margem a partir do valor aproximado do imóvel e aponta, logo no início, se a matrícula tem algum ponto que vai pesar no laudo.
Perguntas frequentes
Quem paga a avaliação do imóvel?
Em regra, o tomador. A tarifa de avaliação é cobrada pela instituição financeira, varia de uma instituição para outra e precisa constar no Custo Efetivo Total da proposta. Pergunte o valor e se ele é devolvido caso a operação não seja aprovada antes de autorizar a vistoria.
Posso usar um laudo que eu mesmo contratei?
Normalmente não. A instituição usa avaliadores credenciados por ela, porque responde pelo valor da garantia que aceita. Um laudo particular, ou um parecer de corretor, pode servir como referência na conversa, mas não substitui a avaliação da instituição.
A avaliação veio abaixo do que eu esperava. Dá para contestar?
Dá para pedir revisão, desde que com fundamento: vendas recentes de imóveis comparáveis na mesma região, benfeitorias que o avaliador não considerou ou erro de área. Discordar do valor sem apresentar dados raramente muda o laudo. Outra saída é levar a operação a outra instituição, que fará a própria avaliação.
O valor venal do IPTU serve como referência?
Não. O valor venal é uma base de cálculo de imposto definida pela prefeitura e pode estar muito acima ou muito abaixo do mercado. O laudo de avaliação não parte dele.
Reformas recentes aumentam o valor da avaliação?
Podem aumentar, se melhoraram o padrão de acabamento ou a conservação do imóvel. Ampliações de área só contam se estiverem averbadas na matrícula; área construída que não consta no registro tende a ser desconsiderada pelo avaliador.
Quanto tempo leva a avaliação?
A vistoria em si é rápida. O prazo total depende da agenda do avaliador na região do imóvel e da elaboração do laudo, e corre em paralelo com a análise de crédito e a análise da matrícula. Documentação completa e acesso fácil ao imóvel evitam uma segunda visita, que é o que mais atrasa essa etapa.
O valor que paguei na compra ou o da escritura conta na avaliação?
Não diretamente. O laudo estima o valor de mercado atual, a partir de imóveis comparáveis na região. O preço de compra e o valor da escritura refletem outro momento e, no caso da escritura, às vezes nem correspondem ao valor real da negociação.
O laudo tem prazo de validade?
Cada instituição define por quanto tempo aceita um laudo. Se a operação demora a ser concluída, ou se houve mudança relevante no imóvel ou no mercado, a instituição pode exigir uma nova avaliação antes da assinatura.
Se a avaliação vier acima do esperado, posso pedir um valor maior?
Pode, dentro de três limites: o percentual do valor de avaliação que a instituição aceita financiar (o LTV), a sua capacidade de pagamento e o valor máximo da linha. Um laudo alto amplia o teto da garantia, mas não aprova sozinho um crédito que a renda não sustenta.
Preciso estar presente na vistoria?
Alguém precisa receber o avaliador e dar acesso a todos os cômodos. Não é obrigatório que seja o proprietário, mas quem acompanhar deve saber responder sobre reformas, área e documentação do imóvel.
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